sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Futuro da Ilusão Atleticana

O Futuro da Ilusão Atleticana[1]

(Quando já se viveu por muito tempo numa civilização específica e com freqüência se tenta descobrir quais foram suas origens e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se às vezes tentado a voltar o olhar para outra direção e indagar qual o destino que a espera e quais as transformações que está fadada a experimentar) (p.15).

Dessa forma, em 1927, Freud inicia um de seus grandes textos “O Futuro de uma Ilusão. Antes de tudo, façamos uma breve exploração sobre este que será tema do presente ensaio.

Começo por lembrar que para o funcionamento da civilização o homem precisou se organizar para suportar o desamparo da impotência diante da força da natureza que, invariavelmente, aponta-lhe suas falhas e limites, até o inevitável da morte. Foi necessário então que o ser humano renunciasse a pulsões incompatíveis com seu ajeitamento em sociedade. Em se tratando daquelas pulsões mais agressivas e destrutivas, como o canibalismo, a coerção é uma das principais formas para se chegar a tal renúncia. Sabemos, no dia-a-dia, que não são poucas as formas de coerção que se colocam sobre nós.

Não obstante, as renúncias conduziram o homem a outras satisfações substitutivas, guiando o sujeito para ações em rumos diferentes da auto-destruição. O trabalho e a arte foram duas interessantes vias para a satisfação. De acordo com Freud, a mais importante das invenções humanas com esse fim foi a religião. Pois, nesse texto, o criador da psicanálise retoma as origens e a força e eficácia das doutrinas religiosas.

É aqui que podemos parar um pouco e esboçar alguma associação com a massa alvinegra. Não é de hoje que ouvimos dizer os apaixonados que torcer pelo Galo é como uma religião. E tem-se nisso um diferencial em relação a outras torcidas. A explosão eufórica das cores preta e branca no Mineirão é exaltada por jogadores, imprensa, administradores e claro, pela própria torcida. Nada mais oportuno então do que retomar, ao final deste fatídico ADC uma discussão fundamental que permeou quase todas as postagens no blog: a devoção infantilizada da torcida atleticana.

Freud nos diz que as idéias religiosas “são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos” (p.39). Ilusão é diferente de erro ou mentira. Não é disto que falamos aqui. Em vez disso, assume um valor de realidade incontestável, ou seja, por mais que se trate de uma invenção imaginária sem confirmação no real, a Ilusão adquire um valor de credulidade entre os que a seguem. Ademais, as ilusões são criadas e mantidas por enorme carga afetiva daquele sujeito ou grupo que a compartilha.

Como tal, o comportamento religioso da torcida atleticana me parece igualmente uma Ilusão. Acreditar que camisa ganha jogo, é balela. Que torcida muda o time e vence qualquer adversário, idem. Levantar a bandeira de que a todo custo a massa deve apoiar o time, dentro e fora de campo, soa como uma fidelidade religiosa. Uma penitência de sacrifício e louvor diante de uma entidade superior que dirige seus caminhos, pune, mas também perdoa. Para nós, essa entidade chamada Clube Atlético Mineiro, tem guiado os fiéis para caminhos tortuosos, de crises, vexames, derrotas. E não há perdão! Quando a massa ameaça qualquer dissidência, a entidade lhe retorna com a lei divina e a moral cobradora de jamais abandonar o clube. E não nos esqueçamos das diversas formas que nos têm cobrado o suado dízimo. O que resta é a punição, o castigo. De todos os lados. Não há time, títulos, administração. E o que se pode fazer com isto?

Perguntamo-nos inúmeras vezes qual a parte que nos cabe neste latifúndio. Qual é o Futuro desta Ilusão?

Sobre a religião, Freud diz que está fadada ao fracasso, uma vez que a ciência traz possibilidades mais interessantes para o desamparo humano. A despeito da infinidade de coisas ainda não descobertas e/ou respondidas, o percurso trilhado pela ciência é mais promissor, sem ser com isso uma Ilusão. Diz também que o infantilismo que orienta o sujeito na crença religiosa será superado, uma vez que o home um dia deixará de ser criança e deverá, a duras penas, encarar a ‘vida de gente grande’.

Quando será que a torcida atleticana irá crescer, finalmente, e avançar como outros já fizeram? Quando daremos à entidade superior Clube Atlético Mineiro um outro status que nos permita torcer, amar, sublimar, sem a necessidade da máscara imaginária da Ilusão?

Ao meu ver, a aposta que Freud fez na ciência se justifica e se concretiza cada vez mais, oitenta anos após ter escrito o referido texto. A nossa aposta, no FEF, compartilhada por outros movimentos alvinegros, tem um rumo parecido. Demos os primeiros passos, saímos da cegueira que nos levava em procissão docilmente ao Gigante da Pampulha.

Permito-me encerrar este ensaio utilizando das palavras do próprio Freud. Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar” (p.63). Não, nosso amor racional, nosso protesto, não são ilusões. Ilusão seria continuar imaginando que aquilo que a indignação, reflexão e mudança de postura não nos pode dar, podemos conseguir no silêncio do conformismo alienado.

Dessa servidão, estou, estamos livres. Visto estarmos preparados para renunciar a uma boa parte de nossos desejos infantis, podemos suportar que algumas de nossas expectativas mostrem que não passam de ilusões” (p.62).



[1] Referência em: FREUD, Sigmund. O Futuro de Uma Ilusão. Obras completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996. P.15-63. Todas as citações são retiradas deste texto.

6 comentários:

eliana disse...

Trocando em miúdos: Fé cega, faca amolada.

Borusso disse...

Enriquecedores e geniais o texto do Sigmund e o ensaio![8)]!
Os temas ligados(dia desses meu amigo Tom o citou) ao charutento vienense arrepiam!

Já fui cético da força da camisa. Hj enxergo a camiseta dum club alinhada com o que o 1° § indica.

A observação da Eliana lembra as tentativas de dissidência. Mal ocorrem, e os "atleticanos de verdade" amolam as facas no rumo de nós "traidores".

Curti à beça o modo como a questão foi transposta ao universo galista, com precisão e brilhantez!

Tom disse...

O foda deste velhinho vienense em seu brilhantismo e em sua fé na cientificidade acaba minorizando o intenso poder atemporal destas ilusões que moldam a subjetividade das chamadas organizações sociais, expontâneas ou não.
O futuro de uma ilusão sempre será outra ilusão.
A citada subjetividade infantil da Massa é da mesma natureza identificatória q se encontra em outras torcidas que são objetos de atração deste mesmo imã imaginário.

Borusso disse...

Sou leigo, detive-me porém na observação acima e...faz bastante sentido!
Tom, as otras no Brasil são as dos clubs de massa? Fla, Cth, BA...?

Gus Martins disse...

Em outro momento (no "mal estar", se não me engano) Freud disse também: "Quem tem ciência, tem também religião. Quem não tem ciência, que tenha religião".

Pois bem. A questão não é substituir a fé pela razão pura e simplesmente visto que: - é impossível e; - no caso do galo, perderia grande parte da magia alvinegra.

Contudo, o alerta fica dado para que pensemos: Até que ponto ficaremos na fé cega?
Os exemplos citados do Borusso: As torcidas do mengo e do curintia também são objetos de atração pela fé e fidelidade ao clube. Mas quando é preciso, fazem um barulho do cão!
a do Bahia tá mais próxima da nossa. Fé cega a qualquer custo. O time encarando a terceirona e a galera enchendo estádio.

Busquemos o caminho do meio. A fé tem o seu lugar, sim. Mas não o único lugar (como tem sido para a massa alvinegra).
Para mim, particularmente, é hoje o menos imprescindível.

Borusso disse...

Nossa[:o] hiper interessante o princípio citado[8)]! Nunca imaginei que o vienense fosse dfnder tal idea!!

O Gus foi na mosca! Enqtº o Atlético tende a se tornar um Bahia ou Ceará, as de massa RJ-SP ostentam um grau de exigência bêeem + alto que o Galo.